domingo, 24 de janeiro de 2010

Transplantes em linfomas

Qual as diferenças entre o transplante autólogo e o alogênico?

O transplante autólogo é muito útil para linfomas que têm um comportamento mais agressivo. Esta definição é um tanto subjetiva mas existem situações onde não existe mais muita dúvida da sua indicação, principalmente porque o sucesso com a quimioterapia convencional é muito limitado.

O paciente que é portador de linfoma de Hodgkin tem uma chance de cura bastante alta com o primeiro tratamento, seja ele ABVD, stanford V, C-MOPP/ABV com ou sem radioterapia, mas, no caso de este primeiro tratamento não ter sucesso, a chance de uma cura com quimioterapia fora do transplante é menor do que 20% mas com o transplante pode chegar a 60-70%.

O mesmo pode ser falado do linfoma difuso de grandes células, que é o linfoma mais comum.

O linfoma da célula do manto, que é um linfoma particularmente resistente à quimioterapia, também pode ser erradicado por longo tempo com este transplante.

O que é o transplante autólogo?
1- não há nenhuma cirurgia envolvida
2- a "medula" é colhida através da veia do paciente.
3- a quimioterapia é de altas doses.
4- os maiores riscos se devem aos efeitos colaterais do quimioterapia e são, basicamente, infecções, sangramentos e anemia.

Já no transplante alogênico, existe uma mortalidade relacionada ao procedimento bem mais alta do que no autólogo apesar de não usarmos altas doses de quimioterapia na maioria das vezes.

No entanto, o transplante alogênico oferece algo que NENHUM tratamento pode oferecer para os linfomas menos agressivos.

A possibilidade de CURA.

A questão é saber em que situações o risco de uma morte prematura por complicações do transplante é um risco a ser corrido diante da possibilidade de cura.

O mais dramático é que esta opção deve ser escolhida precocemente para melhorar as chances do paciente.

Apenas como exemplo, há cerca de 10 anos, a maior indicação para este tipo de transplante foi a leucemia mielóide crônica. Os pacientes sem possibilidade de fazer o procedimento eram tratados com interferon ou bussulfan. Quando os dois grupos foram comparados, a vantagem do transplante só ficou evidente a partir de 8 anos da realização do procedimento.

Daí, o pensamento de que quanto mais jovem o paciente maior será o benefício do transplante.

Na minha opinião, a melhor indicação de transplante alogênico em linfomas hoje seria o paciente jovem e com boa saúde que é portador de linfoma folicular ( o segundo mais comum) que teve uma curta resposta a uma quimioterapia (em geral, menos de 3 anos de remissão).

Um abraço,

Rony

9 comentários:

António Ruivo Meireles disse...

Boa noite,

Tenho um familiar com um linfoma, e neste momento começou a fazer radioterapia com o objectivo de mais tarde proceder a um autotransplante de medula.
Estamos à procura dos melhores especialistas mundiais na área. Vendo que é especialista no tema solicito-lhe se me dá algumas orientações e contactos. Obrigado.

Rony Schaffel disse...

Recomendaria o Serviço de Linfomas do Memorial Sloan-Kettering de Nova Iorque, onde fiz o pós-doutorado.
O chefe do Serviço é o Dr Andrew D Zelenetz.
O responsável pelos transplantes autólogos em linfoma é o Dr Craig Moskowitz.
O site do Memorial é www.mskcc.org

Ao dispor para maiores esclarecimentos e agradecido pelo comentário.
Rony

António Ruivo Meireles disse...

Muito obrigado pela disponibilidade e orientação.

Já agora posso solitar-lhe um parecer/opinião sobre o caso?

Caso Clinico:

Homem 60 anos, com Diabetes de Mellitus.
O exame realizado a 05 de Maio de 2009, diz que a massa tumoral está na zona retroperitonal direita e estende-se desde a glândula supra-renal homolateral até á vesícula seminal.
Tem 8cm de diâmetro que atinge ao nível renal. Essa massa é heterogenia com contornos irregulares mal definidos com sinais de invasão vascular evidentes da veia cava inferior, veia e artéria renal direita, porção proximal da veia renal esquerda bem como a aorta abdominal em grande parte do seu trajecto. Engloba o uréter direito estendendo-se até ao bacinete.
Eles diagnosticaram como sendo Linfoma Não-Hodgkin felicular grau I /II.
Começou a 1º quimioterapia dia 19 Maio 2009, eles chamam de R.CHOP 21 com 6 ciclos. Da 1º sessão para a 2º sessão passam 15 dias mas depois as restantes realizam-se de 3 em 3 semanas. Após terminar as 6 sessões faz um PET que nos diz que já não tem células activas embora tenha ficado ainda com uma massa de 2,5cm. Isto em Outubro de 2009.
Em 27 de Janeiro 2010 começa a ter novamente dores, faz novamente um TAC que diz que a tal massa já tem 3,3cm. Aí inicia a 2º fase de quimioterapia a que eles chamam como sendo 2º linha protocolo ICE e dizem que está previsto novamente 6 ciclos seguido de autotranplante mas nesta etapa só faz 4 sessões. Agora devido à medula não estar a produzir a quantidade de células necessárias para continuar as quimioterapias e tendo em conta que nesta 2º fase foram sempre precisas transfusões de sangue e plaquetas e para o fim o número de glóbulos brancos estarem muito baixos optaram por fazer 2 sessões de radioterapia para reduzir mais um bocado a massa que por esta altura já tem 2cm e depois fazer-se o autotransplante de medula.


Perguntas:
- Considera que existem boas probabilidades ou não de cura?
- Considera que os médicos cá estão a tomar as decisões correctas?
- O transplante de medula é seguro?
- Como poderei entrar em contacto com os especialistas que mencionou?
- Pode-me ajudar na tradução para inglês do "caso clinico"? Existem muitos termos técnicos que me estão a dificultar a tradução do mesmo para inglês.


Muito Obrigado!!

Rony Schaffel disse...

Olá, lá vai a minha opinião:

Considera que existem boas probabilidades ou não de cura?

O linfoma folicular é difícil de curar. No caso por você citado, a duração do efeito da quimioterapia foi muito pequena, menos de 1 ano. O auto-transplante é uma possibilidade a ser tentada mas a cura definitiva é incomum com este procedimento.


- Considera que os médicos cá estão a tomar as decisões correctas?
Prefiro não julgar sem ver o paciente. O tratamento recomendado é uma das possibilidades para este tipo de linfoma.


- O transplante de medula é seguro?
Em centros com experiência ele é muito seguro.


- Como poderei entrar em contacto com osespecialistas que mencionou?
Procure em www.mskcc.org



- Pode-me ajudar na tradução para inglês do "caso clinico"? Existem muitos termos técnicos que me estão a dificultar a tradução do mesmo para inglês.
Prefiro não fazer pois não sou o médico que está tratando o paciente.


Um abraço,
Rony

António Ruivo Meireles disse...

Muito obrigado pela sua paciência e ajuda.

Uma ultima questão: considera que vale a pena o esforço, essencialmente psicologico para o doente, de nos deslocarmos a Nova Iorque ou acha que isso não vai aumentar a taxa de probabilidade de cura? Se fosse consigo recorreria a esse serviço?

António Ruivo Meireles disse...

Olá,

Recebemos a noticia hoje de que o linfoma passou para os ossos. Neste momento, o nosso familiar está internado pois está cheio de dores nas pernas e braços e tem de estar sempre com analgesicos e morfina. Ficou fora de hipotese avançar-se para o transplante de medula visto nesta fase não fazer sentido.
Parece que já não existe possibilidade de cura pelo menos foi o que nos foi dito... :(
Sabe se pode ser feito alguma coisa?
Com o devido acompanhamento e tratamento poderemos prolongar o tempo de vida?

Muito obrigado pela ajuda... nao sabemos a quem mais recorrer...

Camila disse...

Gostaria de saber a respeito do tratamento com relação à cura; porque um transplante - não no atual caso - não é uma cura, é um tratamento, queria saber sobre essa tese.

Obrigada,
Caroline.

Camila disse...

Gostaria de saber a respeito sobre a seguinte tese: "Tranplante não é cura, é tratamento", contudo não precisa ser necessariamente a respeito do que o site está falando e sua respectivo doença.

Obrigada,

Caroline.

Anônimo disse...

Gostaria de saber a respeito da seguinte tese: "Transplante não é cura, é tratamento", não sendo necessariamente sobre o foco do assunto no site.


Obrigada,

Caroline.